Acelerar o negócio é uma equação com vários elementos

Ana Velez Notícias

Num painel onde se discutiu negócio e tecnologia, persistiu a ideia de que as pessoas, mais do que as tecnologias, são o gatilho para a mudança nas organizações. 

Aceleradores Tecnológicos para os Negócios foi o tema que abriu a tarde do primeiro dia de debate no palco principal do Portugal Digital Summit’18. A discussão foi animada por opiniões divergentes, que se alinharam para considerar que as pessoas, muito mais que a tecnologia, são o gatilho para a mudança e a peça chave para que esta aconteça, em qualquer organização.

A começar no próprio IT, defendeu Francisco Barbeira, membro da comissão executiva do BPI. “O IT tem de se sentir a si próprio como um enabler para a mudança”, sublinhou, e “precisa de ter uma visão clara de um roadmap para os sistemas”, sem perder a noção de que o seu custo de desenvolvimento, representa apenas um quinto dos custos de manutenção nos anos seguintes.

Na banca, o responsável defendeu que os desafios que se colocam hoje ao sector não são muito diferentes dos que se apresentam a outras industrias: há novas tecnologias, novos atores e a necessidade de criar novas experiências. Endereçá-los implica “passar de uma lógica de evolução de canais, para uma lógica de evolução das experiências”, admitiu Francisco Barbeira, para sublinhar que o cliente tem de estar cada vez mais no centro da experiência, uma opinião que João Moreira, administrador da NOS, também enfatizou.

Entre tantas mudanças que as empresas hoje enfrentam, esta é mesmo a única constante: “ter o cliente no centro de qualquer estratégia é o que não mudou, nem vai mudar” e deve ser a pedra de toque de qualquer esforço de transformação digital, sublinhou.

Os incumbentes estão a deixar espaço para as startups fazerem melhor Cristina Fonseca, co-fundadora da Talkdesk, trouxe ao debate uma perspetiva mais polémica sobre o posicionamento dos incumbentes, num mercado em mudança. As dificuldades que demonstram em adaptar o modelo de negócio aos novos desafios digitais e em quebrar barreiras, na sua perspetiva, comprometem o foco na tão aclamada experiência do utilizador.

O espaço deixado vago está a ser preenchido pelas startups, sublinhou Cristina Fonseca, que encontrou aí vários exemplos de serviços mais convenientes, mais eficientes e mais baratos e partilhou alguns, nomeadamente no sector financeiro.

As dificuldades foram reconhecidas pelo painel mas justificadas, com Francisco Barbeira a lembrar que uma grande empresa, não podendo deixar de se focar na experiência do utilizador, para lá chegar tem de transformar toda uma herança de sistemas e processos que já tinha, uma bagagem que as startups não têm de gerir. “Os incumbentes têm de fazer equilíbrios” e isso passa por uma gestão de risco que considera os vários stakeholders e inclui o impacto de uma falha para a própria sociedade, considerou.

A chegada das startups, nomeadamente ao sector financeiro, é encarada pelo responsável como um factor positivo, que contribuiu para esticar a criatividade e os limites da regulação, dando alguns exemplos de serviços que as fintech puderam fazer em Portugal muito antes da banca tradicional, como a abertura de contas online.

Cooperar para o sucesso

Numa perspetiva mais abrangente foram identificados vários aspetos que contribuem para dificultar o processo de transformação digital das empresas em Portugal, onde Cristina Fonseca incluiu a aversão ao risco e a estrutura ainda muito rígida das empresas. A gestora defendeu, ainda assim, que estas empresas têm uma oportunidade de abraçar e serem bem-sucedidas no desafio da transformação digital dos seus negócios, se souberem cooperar com empresas mais pequenas – cooperação foi, aliás, uma das palavras em destaque na sessão.

Podem incorporar a expertise de quem faz tecnologias de nicho, abrindo as suas redes de ligação bem estruturadas para as fazer chegar a uma larga base de clientes. Para ter sucesso na transformação, estas empresas terão ainda “de se tornar muito boas na eficiência dos seus processos”, um fator que já era importante para a competitividade e que a globalização acentuou, sublinhou Cristina Fonseca.

Globalização a quanto obrigas

O tema da globalização e do seu impacto na competitividade dos negócios voltou ao debate, para se considerar que tem de estar hoje na visão de qualquer empresa quando desenha uma estratégia. “Se não pensarmos hoje de raiz de forma global não conseguimos”, concordou João Moreira, administrador da NOS. A máxima deve valer também para a orientação das estratégias políticas, de captação de investimento e de talento.

“A nossa estratégia como país é dizer: venham que nós somos espectaculares e baratinhos”, defendeu Cristina Fonseca, considerando que este posicionamento atrai investimento nem sempre qualificado e faz com que os recursos humanos do país não estejam a ser treinados para trabalhar em tecnologias de ponta. “Só estão a fazer trabalhos que não há quem faça, nos grandes centros onde estão as empresas” que vêm para Portugal, uma opinião polémica no seio do painel, onde também se destacou a qualidade da formação de base das escolas portuguesas.

Os “must have” do enquadramento tecnológico

Sobre as tecnologias da transformação digital e voltando ao exemplo do BPI, Francisco Barbeira ainda considerou que é fundamental ter plataformas de desenvolvimento adequadas, dando aqui o exemplo das plataformas low-code. Destacou também a relevância de ter uma infraestrutura alinhada com os novos requisitos e a importância de adotar estratégias de desenvolvimento ágil, que no caso do banco terão possibilitado “uma grande aproximação ao negócio” e a capacidade de tomar decisões rápidas. Uma nota sobre o tema para sublinhar que “ser ágil não significa desenvolver com mais risco”.

O Portugal Digital Summit’18 decorre nos dias 23 e 24 de outubro de 2018 no Pavilhão Carlos Lopes, em Lisboa, e é o evento de referência da Economia Digital em Portugal. A conferência é organizada pela ACEPI – Associação da Economia Digital, e está integrada na Portugal Digital Week, que conjuga vários eventos e a entrega dos Prémios ACEPI Navegantes XXI.