Digital obriga a reinventar negócios todos os dias… até nas startups

A economia digital vale 5% do PIB português, o que dá ao país um longo caminho a percorrer para concretizar o potencial desta oportunidade, mas a recompensa será elevada.

Pelas contas da Google, se Portugal “resolver o gap digital” afirmando-se como hub digital europeu, isso terá um impacto anual no PIB nacional de cerca de 1,5 pontos percentuais, defendeu Bernardo Correia, country manager da empresa em Portugal, no Portugal Digital Summit’19, no painel Superfast & Agile Digital Business do palco Strategy for Digital.

Os problemas a resolver estão ligados sobretudo a questões de escala e eficiência, defendeu o responsável, apontando como caminhos a internacionalização e a adoção de ferramentas cloud que agilizem processos dentro das empresas, como a Google Cloud, exemplificou. Mas na sessão ficou claro que os desafios da digitalização e da necessidade de uma atualização permanente dos modelos de negócio se colocam hoje a todas as empresas.

Na Google, Bernardo Correia, garante que o maior desafio tem sido transformar todo o suporte de um negócio baseado em servidores e nos dados que aí estavam guardados, numa empresa Artificial Intelligence First, onde os dados ganharam um papel ainda mais relevante. Isso aplica-se à oferta e à própria orientação estratégica da empresa, que é definida tendo por base os indicadores disponíveis e as projeções que com isso é possível criar para os anos seguintes, para a partir daí traçar um caminho, explicou.

Revolut revela que o segredo está nos dados

Também para a Revolut trabalhar os dados e suportar todas as decisões na informação que a empresa vai recolhendo do mercado e dos clientes é o segredo do negócio, admitiu Ricardo Macieira, Country Director da fintech em Portugal: “todas as decisões que tomamos têm de ter uma fundamentação bem forte em termos de dados”.

Foi com essa aposta que a empresa montou toda a estratégia para se transformar numa app viral para o seu principal mercado – o dos millennials -, admitiu o responsável, e são os dados que vão ajudando a empresa a moldar inovações na oferta de serviços. “Para continuar a crescer tem de haver uma cultura de inovação”, ter os melhores e trabalhar em equipa, acrescentou.

A justificar a preferência dos oito milhões de que já usam a app financeira (em Portugal são 300 mil, a crescer a um ritmo de 1.200/dia), referiu ainda Ricardo Macieira, estão outros dois ingredientes: “velocidade e simplicidade de serviço, que são hoje essenciais”.

Altice Portugal poupa 6 milhões de euros com menos faturas em papel

Nas empresas tradicionais agilizar o negócio passa por redesenhar processos enraizados, muitas vezes complexos, como admitiu no mesmo debate Alexandre Matos. “O grande desafio é desburocratizar. Em empresas antigas com processos pesados só com esta simplificação é possível valorizar a autoestima de quem trabalha” e extrair todo o potencial dos recursos humanos, concretizou o responsável.

Este é um caminho que a própria Altice, ex-PT, tem feito, admitiu o CFO da Altice Portugal, “com as dificuldades de qualquer empresa para se adaptar ao digital, mas num negócio cujo principal propósito sempre foi facilitar adaptações”. E neste caso concreto estas adaptações têm passado por questões como a integração sistemas, lançamento de serviços inovadores para clientes – tirando partido da automação, adoção de ferramentas que melhorem a eficiência da operação (fazendo a previsão de incumprimentos, exemplificou) ou pela desmaterialização.

A redução das faturas em papel é uma das apostas, atingido já com 60% dos clientes e poupanças de 6 milhões de euros, revelou Alexandre Matos, que garante o reinvestimento do valor em inovação.

Millenniumbcp reinventou serviços para recuperar relevância junto dos clientes

Maria José Campos, da comissão executiva do Millennium BCP, reconheceu na sessão que no sector da banca “a transformação digital é urgentíssima” em diferentes domínios, da forma de interagir com o cliente, às questões da resiliência da tecnologia, bases de custos ou gestão de riscos na área da cibersegurança.

O Millennium BCP, garantiu, está a endereçar todos estes temas “adotando uma estratégia de startup, que parte de uma folha em branco”. Materializou-a no programa Ignite que se centra em novas estratégias para recentrar a relevância do banco junto dos clientes; criação de APIs que permitam integrar soluções de outros parceiros (fintechs), ou na aposta em tecnologias como a IA ou a robotização para refazer processos.

Neste contexto nasceu também uma nova app, que materializa o esforço do banco para “criar novas ligações ao cliente”, precisou a responsável, uma aposta que fez disparar a utilização de um conjunto de serviços (transferências cresceram 52%) e a venda de alguns produtos (empréstimos pessoais cresceram 216%).

Um negócio tradicional pode ser só digital? Undandy mostra que sim

Chegar ao cliente em condições de propor a melhor experiência, trazendo-o de volta para uma nova compra, é afinal o objetivo de qualquer negócio, novo ou mais antigo, mais ou menos digital, uma ideia que ficou bem patente no debate.

Como sublinhou Rafic Daud, Chief Executive Officer da Undandy, “a tecnologia é só mais um integrante, que obriga as empresas a adaptarem-se” e a adotarem um ritmo mais rápido. Já “o consumidor é o mesmo, só temos outras formas de interagir com ele” quando são envolvidos canais digitais, acrescentou o responsável, que garante nunca ter entrado num avião para vender sapatos num dos 140 países para onde a sua marca os vende online, desde que se estreou em 2015.

O modelo de negócio da Undandy é 100% digital, para levar sapatos feitos à mão – cada par será tocado por 17 pares de mãos nos cerca de 15 dias necessários para os fabricar – a 50 mil clientes espalhados pelo mundo. É um modelo de negócio que se reinventa a cada conquista, admitiu o gestor, e que funciona, como atesta a taxa de recompra de 70%.