Energy

Mobilidade elétrica revoluciona indústria automóvel

Eletricidade e hidrogénio são as tecnologias que estão em cima da mesa, mas a visão de futuro parece não estar ainda bem definida. À falta de infraestruturas junta-se uma indústria que está ainda a adaptar-se a esta nova realidade, tanto a nível de produção como de regulação.

A mobilidade urbana é um dos temas mais debatidos no contexto das cidades inteligentes, das alterações climáticas e da transformação digital. Do lado do consumidor, a pressão para a adoção de carros elétricos e de opções de mobilidade alternativas e mais amigas do ambiente é cada vez maior.

Para as empresas, a criação de modelos de negócio ajustados às novas tendências tecnológicas e de consumo é urgente. O número de automóveis elétricos vendidos em Portugal em abril caiu para metade. O principal fator terá sido o fim dos incentivos estatais, mas a questão da fraca autonomia e da falta de infraestruturas mantém-se presente.

O mercado nacional estará a evoluir ao ritmo desejado? A resposta a esta questão não reuniu consenso no palco Industries Going Digital , durante a sessão “Mobility & Automotive”. Isabel Lencastre, Executive Board Member Portugal da SIXT considera que Portugal está a ficar para trás porque ainda não houve uma mudança de mentalidade das pessoas. “A nossa geração escolhe uma frota elétrica exclusivamente por causa dos incentivos fiscais e a nova geração, que vai fazer a diferença, ainda não tem poder de compra”, justificou. Esta representante da SIXT reconhece que o sector não tem ainda infraestruturas de suporte adequadas e que a autonomia das baterias pode ser um fator dissuasor. Ainda assim, defende que o nosso país deve promover a mobilidade elétrica através de campanhas de sensibilização ambiental, e não através de incentivos económicos.

Já Pablo Pastega, diretor-geral da Flixbus para Espanha e Portugal, considera que os governos não devem subsidiar os equipamentos porque ainda não sabem que tecnologia vai vingar. “Não é o governo que deve decidir, é o mercado que deve escolher a tecnologia mais positiva e desbravar terreno no momento certo”, disse.

Ricardo Tomaz, diretor de comunicação e de marketing estratégico da SIVA-AUDI/Volkswagen, defende que o carro do futuro será elétrico, autónomo e partilhado, mas critica o processo de transformação em curso e o ritmo de evolução que está a ser exigido aos fabricantes. “A mobilidade elétrica não nasce da procura do consumidor, está a ser imposta por uma questão regulamentar e por pressões junto da indústria, que envolvem uma responsabilização um pouco injusta associada às emissões de CO2”.

Este orador sublinha que a evolução do mercado não pode ser mais rápida do que está a ser, até porque a indústria automóvel não está ainda orientada nem preparada para o desenvolvimento destes novos sistemas. “Vamos ter que substituir os nossos engenheiros mecânicos por engenheiros de software. A transformação é grande e não pode ser acelerada sob penas de enveredarmos por um caminho perigoso”, lembrou.

Ricardo Tomaz reforça ainda que, nesta fase, já não pode haver indecisões sobre a tecnologia a adotar, porque existem avultados investimentos feitos por esta indústria nos elétricos. “Temos que convencer as pessoas que o nosso caminho é o certo, mas para isso precisamos de incentivos fiscais e de conveniência”, defendeu. “Agora é importante que o poder político e o mercado nos deixassem trabalhar, algo que até agora não tem acontecido”.

Rui Velasco Martins, do Instituto Português de Mobilidade e Transportes, refere que a eletricidade está destinada a ter um crescimento significativo durante a próxima época. Existe uma tendência de redução do preço e de aumento da conectividade entre os veículos, objetos e infraestruturas, e em Portugal já estão a ser desenvolvidos alguns projetos nesta área que pretendem trazer uma mobilidade conectada e cooperativa. A escolha tecnológica não compete aos reguladores, defende, mas que é importante haver um estímulo do mercado para os fabricantes investirem de forma confiante.

Independentemente da tecnologia selecionada, a mobilidade tem que ser racional, defende este orador. “A mobilidade vai passar a ter uma base digital que vai implicar novos modelos de negócio, enquadramentos legais, e que tem que ser sustentável em termos de negócio e de sustentabilidade”, indicou. A tendência aponta também para uma mobilidade personalizada, de acordo com as necessidades das pessoas e a longo prazo descarbonizada.

À margem da mobilidade pessoal, as empresas de renting e de transportes também têm que se reinventar. O rent-a-car deverá chegar aos 700 milhões de euros este ano. O negócio regista um forte ritmo de forte desenvolvimento, mas tem igualmente que agarrar os novos conceitos de mobilidade através do digital. “As startups são aliados perfeitos nos processos de transformação digital. São disruptivas, afastam-nos da nossa zona de conforto e ajudam-nos a inovar”, disse Isabel Lencastre, da SIXT.

Em termos de negócio o car sharing é uma opção viável para a SIXT, mas “num modelo rentável”. A solução poderá passar por uma oferta de car sharing empresarial e controlada através de uma app, mas para que isto aconteça “as entidades regulatórias têm que facilitar e ser mais ágeis”.

Num segmento diferente, a Flixbus possui também uma oferta de transportes centrada no cliente, mas desenhada com base num modelo de parceria e partilha de competências, recursos, receitas e investimentos. Os planos de expansão estão em curso, mas Pablo Pastega sublinha que a intervenção dos governos é essencial para garantir que todos os players do sector tenham condições de trabalho positivas. “Só assim podemos contribuir para o crescimento do mercado.”